Quem olha para o mar de Itapoá durante o inverno pode ter uma surpresa gigantesca.
É justamente nessa época do ano que diferentes espécies de baleias percorrem o litoral brasileiro em suas rotas migratórias. No Litoral Norte de Santa Catarina, a presença desses animais já foi registrada diversas vezes.
Durante toda a temporada de inverno, muitas pessoas observam e conseguem até registros dessas gigantes do mar.
Para algumas espécies, a explicação está em uma viagem que percorre milhares de quilômetros.
Durante os meses mais quentes do Hemisfério Sul, baleias como a franca e a jubarte permanecem em águas frias e altamente produtivas próximas à Antártica, onde encontram grande quantidade de alimento.
Quando chega o inverno, elas seguem para regiões de águas mais quentes e protegidas. No caso da baleia-franca-austral, o litoral sul do Brasil funciona como área de reprodução, nascimento e desenvolvimento dos filhotes. A temporada reprodutiva no país ocorre principalmente de julho a novembro, com maior número de avistamentos normalmente entre agosto e setembro.
Estudos sobre os mamíferos aquáticos da região da Babitonga também apontam que baleias-francas são observadas com frequência durante os meses reprodutivos nas águas costeiras próximas à baía e, eventualmente, chegam a entrar no próprio estuário. A ocorrência de filhotes indica ainda a importância dessa região para o cuidado parental da espécie.
A baleia-franca-austral, de nome científico Eubalaena australis, é provavelmente a espécie mais associada ao inverno em Santa Catarina. E ela é realmente gigante. Uma fêmea adulta pode ultrapassar 17 metros de comprimento e 60 toneladas. Diferentemente de muitas outras baleias, a franca não possui nadadeira dorsal.
Uma das características mais curiosas está na cabeça. As baleias-francas possuem calosidades naturais cobertas por pequenos crustáceos chamados ciamídeos. O desenho dessas estruturas é diferente em cada animal e permanece praticamente o mesmo durante a vida, permitindo aos pesquisadores identificar individualmente cada baleia, como se fosse uma espécie de impressão digital.
Outra forma de reconhecê-las à distância é pelo borrifo. Quando respiram na superfície, o jato de ar forma um desenho característico em “V”, podendo alcançar entre 5 e 8 metros de altura.
As dimensões impressionam desde o nascimento. Um filhote de baleia-franca nasce normalmente com aproximadamente 5 metros de comprimento e entre 4 e 5 toneladas.
Nas primeiras semanas de vida, pode ganhar cerca de 50 quilos por dia, graças ao leite extremamente rico em gordura produzido pela mãe.
A gestação dura aproximadamente 12 meses e, em média, uma fêmea tem um filhote a cada três anos. É também por isso que mães acompanhadas de filhotes costumam permanecer em áreas rasas e relativamente próximas à costa.
Apesar de a baleia-franca ser a espécie mais conhecida em Santa Catarina, ela não está sozinha. A baleia-jubarte, Megaptera novaeangliae, também aparece na região.
A espécie pode ser encontrada nas águas próximas à Baía da Babitonga durante seu período migratório, principalmente na desembocadura da baía e nas áreas costeiras próximas.
As jubartes podem atingir aproximadamente 16 metros e 40 toneladas. Elas possuem nadadeiras peitorais extremamente longas, que podem chegar a cerca de um terço do tamanho total do corpo.
Também são famosas pelos saltos para fora da água e pelo complexo repertório de sons emitidos principalmente pelos machos.
Para quem está observando da praia, alguns detalhes podem ajudar.
A baleia-franca não possui nadadeira dorsal, tem grandes calosidades na cabeça e apresenta o famoso borrifo em formato de “V”.
Já a jubarte possui uma pequena nadadeira dorsal sobre uma elevação do corpo, longas nadadeiras peitorais e uma cauda com bordas mais recortadas. Seu borrifo tende a ser mais concentrado, sem o formato em “V” característico da franca.
Ver um animal desse tamanho tão próximo da costa desperta curiosidade, mas a observação precisa respeitar alguns limites.
A legislação brasileira determina que embarcações não se aproximem de baleias com o motor ligado a menos de 100 metros. Também é proibido bloquear o caminho dos animais, separar grupos ou perseguir uma baleia por períodos prolongados.
O recomendado é que, sempre que possível, a observação seja feita diretamente da praia, de costões ou de locais elevados.
Além de ser mais seguro, muitas vezes é justamente da areia que acontecem os melhores encontros.
No verão, são as praias cheias que chamam atenção. No inverno, o cenário muda.
Com menos movimento na areia e temperaturas mais baixas, o litoral passa a receber visitantes que viajaram milhares de quilômetros pelo Atlântico.
Uma nadadeira surgindo entre as ondas, um borrifo no horizonte ou uma mãe acompanhada pelo filhote podem transformar um dia comum na praia em uma cena difícil de esquecer.
E os registros feitos ao longo dos últimos anos mostram que, em Itapoá, vale a pena olhar para o mar durante o inverno. Às vezes, ele devolve o olhar em proporções gigantescas.







