A confirmação de um novo porto da Coamo em Itapoá trouxe grandes expectativas para o futuro da cidade. Mas também levantou uma pergunta que aparece com frequência nas conversas entre moradores:Itapoá vai ficar suja por causa da movimentação de grãos?
A preocupação não surgiu do nada. Paranaguá, no litoral do Paraná, possui uma das maiores estruturas portuárias do país para movimentação de produtos como soja, milho, farelos e fertilizantes. Quem circula pelas regiões próximas aos terminais pode perceber marcas de uma cidade que convive há décadas com um fluxo intenso de caminhões e diferentes operações portuárias.
E é justamente aí que nasce uma comparação que precisa ser feita com cuidado. A Coamo possui operações em Paranaguá, mas não é a única empresa movimentando granéis na cidade. São diferentes terminais, operadores, armazéns e milhares de veículos circulando dentro de um mesmo complexo logístico.
Por isso, antes de concluir que a chegada da Coamo poderia transformar Itapoá em uma nova Paranaguá, fomos conhecer de perto como a cooperativa trabalha
A convite da Coamo, visitamos suas instalações em Paranaguá para entender como funciona a operação. Conhecemos o processo de chegada dos caminhões, a movimentação dos grãos, os sistemas de segurança e os cuidados com higiene e limpeza. E uma coisa ficou clara durante a visita: não é correto atribuir à Coamo todos os problemas relacionados à movimentação de granéis em Paranaguá.
A própria história do Porto de Paranaguá mostra que a questão da limpeza das vias envolve todo o conjunto de operações da cidade. Em 2011, por exemplo, a Administração dos Portos de Paranaguá e Antonina implantou medidas para impedir que caminhões deixassem áreas portuárias carregando resíduos que poderiam cair nas ruas. As ações incluíam higienização dos veículos, fiscalização de vazamentos e limpeza permanente das vias próximas aos terminais.
Ou seja, o problema não está simplesmente no fato de movimentar grãos. O problema aparece quando existe derramamento durante o transporte e quando não há controle adequado sobre os caminhões e sobre a operação.
Quando alguém vê resíduos de grãos ou sujeira nas proximidades do complexo portuário de Paranaguá, dificilmente sabe identificar qual empresa é responsável por aquela carga. Para quem está do lado de fora, tudo acaba sendo visto simplesmente como “o porto”.
Mas as empresas não trabalham todas da mesma forma. A Coamo se destaca entre as empresas que adotam boas práticas para evitar que resíduos cheguem às ruas.
Entre os procedimentos realizados estão: a limpeza dos caminhões após a descarga, o uso de equipamentos para retirar resíduos acumulados nos veículos, estruturas nas saídas das moegas para recolher possíveis sobras de produto e a inspeção dos caminhões antes de deixarem o terminal.
Durante a nossa visita, pudemos perceber justamente essa preocupação com controle, segurança e limpeza ao longo da operação. Isso muda bastante a forma de olhar para a questão.
A Coamo opera dentro de uma cidade que concentra diferentes terminais graneleiros e um enorme fluxo de cargas. Portanto, os problemas encontrados em Paranaguá não podem ser automaticamente atribuídos a uma única empresa.
Quando falamos de grãos espalhados pelas ruas, é importante entender que boa parte do problema pode acontecer durante a logística terrestre.
Um caminhão com falhas de vedação, resíduos acumulados em sua estrutura ou sem uma limpeza adequada após a descarga pode espalhar pequenas quantidades de produto ao longo do caminho. Quando isso acontece com um veículo, o impacto pode ser pequeno. Quando acontece repetidamente em uma cidade que recebe milhares de caminhões ligados a diferentes operações, o resultado se torna muito mais visível.
Foi justamente por isso que o Porto de Paranaguá criou, ao longo dos anos, regras de higienização, fiscalização e limpeza das vias. A diferença está no controle. Quanto mais tecnologia, fiscalização e cuidado existirem dentro do terminal e na saída dos caminhões, menor é o risco de os resíduos chegarem às ruas.
Esse é talvez o ponto mais importante de toda a discussão. Comparar diretamente as duas cidades pode levar a uma conclusão errada. Paranaguá possui uma estrutura portuária formada ao longo de décadas e concentra diferentes empresas, terminais, armazéns e operações ligadas à movimentação de granéis.
Itapoá possui outra configuração. Hoje, o Porto Itapoá é especializado principalmente na movimentação de contêineres. Já o projeto da Coamo representa uma nova frente de movimentação de cargas no município, com uma estrutura própria e planejada desde o início para uma operação moderna. O projeto anunciado prevê investimento de aproximadamente R$ 3 bilhões, área de 43 hectares, três berços de atracação e capacidade projetada para movimentar até 11 milhões de toneladas por ano. A previsão divulgada é de início das operações até 2030.
A expectativa também é de uma movimentação que poderá chegar a até mil caminhões por dia quando o terminal estiver em plena operação. Esse volume naturalmente exige atenção.
Mas existe uma diferença importante: Itapoá não terá a mesma concentração histórica de vários terminais graneleiros espalhados dentro de um grande complexo urbano como acontece em Paranaguá.
Dentro do município, a operação da Coamo será a grande referência na movimentação desse tipo de carga. Isso facilita a identificação das responsabilidades e permite que os padrões de controle sejam incorporados desde o planejamento da operação.
Depois de conhecer a operação em Paranaguá, a resposta mais responsável é: não existe motivo para afirmar que Itapoá ficará como Paranaguá simplesmente porque receberá um porto graneleiro.
A experiência de Paranaguá mostra que os impactos relacionados à sujeira nas vias estão ligados a um cenário muito mais amplo, formado por décadas de atividade portuária, diferentes operadores e um fluxo gigantesco de caminhões.
Também mostra que existem formas de reduzir esses problemas. A própria Coamo já possui histórico documentado de ações voltadas à limpeza e fiscalização de caminhões em sua operação de Paranaguá. O fato de Itapoá receber uma estrutura nova também permite que tecnologias e procedimentos mais modernos sejam previstos desde o início.
Isso não significa que uma operação portuária desse tamanho não trará impactos ou que a cidade não precise acompanhar de perto o projeto. Muito pelo contrário. Com a previsão de milhares de toneladas de cargas e um fluxo significativo de caminhões, será fundamental cobrar infraestrutura viária, fiscalização, manutenção das rotas, controle ambiental e cumprimento rigoroso das medidas previstas no processo de licenciamento.







