Itapoá acaba de concluir uma das obras mais importantes de sua história. Na segunda-feira, 24 de agosto de 2026, chegou ao fim a etapa de alargamento da faixa de areia que transformou 8,8 quilômetros da orla do município, no Litoral Norte de Santa Catarina.
Considerada a maior obra de alargamento de praia já realizada no Brasil em extensão, a intervenção contemplou trechos das praias Pontal do Norte, Princesa do Mar e Figueira do Pontal. Em determinados pontos, a faixa de areia avançou entre 50 e 200 metros, mudando de forma significativa a paisagem da região.
O trabalho começou em 20 de outubro de 2025 e levou pouco mais de dez meses até alcançar os 8,8 quilômetros previstos. A última etapa foi concluída na região próxima ao Porto Itapoá.
O que torna o alargamento da praia de Itapoá ainda mais importante é a forma como ele foi realizado. A obra está diretamente ligada ao aprofundamento do canal de acesso à Baía da Babitonga. Durante a dragagem, sedimentos retirados do fundo do mar que apresentavam características adequadas foram destinados à recuperação da orla de Itapoá.
Segundo o Porto de São Francisco do Sul, esta é a primeira vez no Brasil que sedimentos provenientes de uma dragagem portuária são utilizados dessa maneira em um projeto de alimentação artificial de praia.
Na prática, uma mesma intervenção atende a dois grandes objetivos. De um lado, o canal da Baía da Babitonga está sendo aprofundado para aumentar a capacidade de navegação e preparar o complexo portuário para embarcações maiores. Do outro, parte da areia retirada desse processo foi aproveitada para recuperar trechos do litoral de Itapoá afetados historicamente pela erosão costeira.
Grande parte da operação foi realizada pela draga Galileo Galilei, uma embarcação com cerca de 170 metros de comprimento.
A draga retirava os sedimentos do fundo da Baía da Babitonga e transportava o material até próximo da costa. A areia era então bombeada por uma tubulação de aproximadamente 400 metros até a praia.
Já em terra, máquinas pesadas distribuíam e modelavam o material para formar o novo perfil da faixa de areia. O resultado pode ser visto ao longo de quilômetros da orla. Regiões que anteriormente tinham uma faixa de areia consideravelmente menor passaram a contar com novos espaços para circulação, lazer e uso da praia.
O alargamento não foi pensado apenas para deixar a praia maior. Itapoá convive há décadas com a dinâmica natural da costa e com episódios de erosão marítima. Em determinados pontos, o avanço do mar provocou a redução da faixa de areia e aumentou a vulnerabilidade de estruturas próximas à orla.
A alimentação artificial da praia aumenta a distância entre o oceano e a área urbanizada e ajuda a tornar a costa mais resistente aos efeitos de ressacas e outros eventos marítimos.
A própria Prefeitura de Itapoá explica que a alimentação artificial é uma medida para recuperar o perfil da praia e aumentar a resiliência do litoral, principalmente nas áreas atingidas pelo processo erosivo.
Por isso, a transformação que hoje chama atenção visualmente tem também uma função de proteção costeira.
A recuperação da praia não termina simplesmente na colocação de areia. O projeto também envolve a reconstrução do sistema natural de proteção da costa.
Mais de 180 mil mudas de seis espécies de vegetação de restinga já foram plantadas em 31 áreas ao longo da orla. Também está sendo implantado um sistema contínuo de dunas, com estruturas entre aproximadamente 1 metro e 1,5 metro de altura e cerca de 26 metros de largura.
A ideia é que dunas, restinga e nova faixa de areia funcionem de maneira integrada. Além de ajudar na fixação da vegetação, esse sistema contribui para a estabilidade da praia e cria uma proteção adicional diante da ação do mar.
O projeto conta ainda com acompanhamento ambiental, análise dos sedimentos, monitoramento da vegetação e outras medidas previstas no Plano de Gestão Ambiental da intervenção.
Existe uma diferença importante. O alargamento dos 8,8 quilômetros da praia de Itapoá chegou a 100%, mas a dragagem do canal da Baía da Babitonga ainda não foi totalmente concluída.
Na atualização divulgada em 24 de agosto, o Porto de São Francisco do Sul informou que a dragagem havia alcançado 88% de execução. A Galileo Galilei já tinha retirado aproximadamente 10,6 milhões de metros cúbicos de sedimentos, de um total previsto de cerca de 12 milhões de metros cúbicos. Essa parte da obra deverá continuar ao longo de 2026.
O projeto completo envolve investimento de aproximadamente R$ 333 milhões e prevê o aprofundamento do canal de acesso dos atuais 14 metros para 16 metros.
O aprofundamento também terá reflexos diretos sobre a atividade portuária. Com a nova configuração do canal, o Complexo Portuário da Baía da Babitonga deverá ter condições para receber embarcações de até 366 metros de comprimento com carga máxima.
Antes da obra, o complexo operava com navios de até 336 metros e aproximadamente 10 mil TEUs. Com o aprofundamento, a capacidade poderá chegar a embarcações de aproximadamente 16 mil TEUs.
Isso beneficia diretamente os portos instalados na região e amplia a capacidade logística do Norte de Santa Catarina.
É justamente essa combinação que torna o projeto tão particular. Ao mesmo tempo em que uma obra prepara a região para receber alguns dos maiores navios do transporte marítimo mundial, os sedimentos retirados do canal foram utilizados para recuperar e ampliar a praia de Itapoá.
Para quem visita Itapoá, a mudança é impossível de ignorar. Uma faixa de areia maior significa mais espaço para moradores e turistas durante os períodos de maior movimento, principalmente na temporada de verão.
Também abre novas possibilidades para atividades esportivas, lazer e uso público da orla. Somado às praias, à natureza e aos serviços da cidade, o alargamento passa a ser mais um elemento na consolidação de Itapoá como destino turístico no litoral catarinense.
O momento coincide com outro reconhecimento recente. Em agosto de 2026, Itapoá passou a integrar o grupo de apenas 62 cidades catarinenses classificadas como “Municípios Turísticos” dentro do Mapa do Turismo Brasileiro.
A transformação da orla também chama atenção de quem acompanha o mercado imobiliário. Obras de proteção costeira, novas infraestruturas, crescimento turístico e melhoria dos espaços públicos são fatores que aumentam a atratividade de regiões próximas ao mar.
No caso de Itapoá, o alargamento acontece em um momento em que a cidade já vive forte expansão urbana, imobiliária, turística e logística. Isso não significa que todos os imóveis terão a mesma valorização ou que uma determinada valorização esteja garantida. Localização, padrão do imóvel, infraestrutura do entorno, oferta e demanda continuam sendo determinantes.
Mas uma transformação dessa dimensão muda a percepção sobre determinadas regiões da cidade e adiciona um novo elemento ao potencial de desenvolvimento da orla. Mais espaço de praia, maior proteção contra a erosão e uma cidade ganhando projeção nacional tendem a aumentar o interesse de moradores, turistas, construtoras e investidores.
Com a conclusão dos primeiros 8,8 quilômetros, uma pergunta começou a aparecer com cada vez mais frequência entre moradores da cidade: E a região Norte de Itapoá que não foi contemplada nesta etapa?
O assunto já está no radar do município. Em resposta pública nas redes sociais a um questionamento sobre a região das Três Pedras, o prefeito Jeferson Garcia explicou que deverá ser realizada uma licitação para contratar os estudos de viabilidade da parte Norte da orla.
Segundo o prefeito, esse será o primeiro passo. Depois dos estudos, será necessário desenvolver um projeto executivo, definir quanto custaria uma nova intervenção e, a partir desse valor, buscar os recursos necessários para viabilizar uma futura engorda da praia.
Ou seja, neste momento não existe uma nova obra de alargamento confirmada para toda a região Norte do município. Existe um processo que ainda precisa passar pelas etapas técnicas, ambientais, financeiras e administrativas antes que uma eventual nova intervenção possa sair do papel.
A informação é importante porque mostra que o fim dos atuais 8,8 quilômetros pode não representar necessariamente o fim da discussão sobre a recuperação costeira de Itapoá.
O município já vinha estudando a possibilidade de avançar com análises para outros trechos da orla, incluindo uma extensão superior a 9 quilômetros em áreas que ficaram fora desta primeira intervenção.







